domingo, 8 de novembro de 2009

Ferrugem


De súbito o envolvimento ganha contornos diferentes. É preciso deitar com outro corpo para que ela perceba que a relação almejada é impossível. Acostumada a gritar que se basta e que os acontecimentos mundanos-cotidianos não a afetam, agora se sente fuzilada, um fuzilamento íntimo, que não cabe na sua idade. É um misto de ciúme; com razão de não mais ter. Um protesto solitário, onde não encontra hora, nem lugar.

Forjar todo um conteúdo, toda a maneira de existir, em prol de uma vida dupla. Há cumplicidade nos dois mundos, para ambos soletra amor [puro ¬ repleto de verdade ¬ um singular e um plural]. Questiona-se se o impossível é real. Dormindo, e de olhos arregalados o peito espalma diante de todo o sentimento. Quero-os para mim. O mundo expõe que não. Nada se adéqua, tudo quer sentido. Para quê o sentido se o amor esquenta todo o universo frio?

Não à interrogação!

Cego de luz, ele pode se dar e ser amado por corpos vários. Mas, congratular com tantos desejos é para ela alcançar a plenitude. Isso ela não pode. É incapaz: nós a impossibilitam. É a corda. Pede-se: acorda. Pálpebras se abrem. Ela, com quebranto, percebe que o tempo que se estendia para eles, não lá está. Foi-se. E com ele a alegria. Mas, para se caber dentro de si, é necessário ficar cheia de vazio, com falência de setor.

Educada para não ter porto quando de vez em sempre desejava ancorar, agora se ver de pé em um navio que deseja plataforma. Mesmo as horas e os minutos iguais não bastam para uma reaproximação. Não há forma. Não existe saída. Pesa não saber de seus beijos, pois já tinha se acostumado a respeitar e a desconfiar do seu silêncio. Já vivia na labuta que era a imersão de conhecê-lo.

Quem dera o tempo em que o coração só disparava de amor-temor. Agora a desilusão, o já da partida, a pressa de não mais sentir.

De volta à interrogação!

Como encará-lo sem que diariamente rogue a Deus que o coração não dispare?

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Tornar a frieza um aspecto exterior da sua sensibilidade.

Maria Karina

3 comentários:

Raquel Galvão disse...

genial! me disse tudo e me tocou profundamente! Obrigada, Maria, por tanta sensibilidade. Beijos!

Lívia disse...

O tempo sempre se estenderá.
Lindo, como todos os seus dizeres.
Beijos Amada.

Deize Almeida disse...

De súbito o envolvimento ganha contornos diferentes...muito bom o que foi dito aqui. Beijos!