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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lavra, dio!




Com medo de matar a poesia, tomei uma pílula
Deixa para que me reiventasse

Rezei para que nem todos os dias fossem quadrados
E antes mesmo que o corpo ereto virasse horizontal de cansaço
Sentei e encarei a rotina.

Fez-se o duelo.
Como uma mãe loba disse:
"vá te embora hora vazia.Que aqui nesse peito há sempre poesia".

Que venham as contas do fim do mês
E o tempo que passa e foge a minha lucidez
Que no fundo dos meus olhos, há entranha de mundo
E sempre se chora a saudade do tempo vadio

Aqui na cidade, não se ara a terra
Mata os relógios
Tempo é sinônimo de dinheiro

No imundo dos homens
Já não gosto tanto do que escrevo.

Sonhando acordada, ou trabalhando deitada
Durmo à noite pra viver
Visitar a praia em frente
Distante vizinha que nunca me vê

A pessoa nasce para o que é?
Porque arredia de mim
Me misturei por inteiro

Agora faço matemática com as palavras
E erro a soma
Será + ou - o que me consome?

domingo, 17 de janeiro de 2010

Depois da Tempestade...


"A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
o tempo está novo,
a cidade lavada.
A tarde entardece,
sem o ciciar das cigarras,
sem o jubilar dos pássaros,
sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove ligeira
nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventando
nos vidros que se embalaçam,
nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
chove no mar que está cinza,
chove no asfalto negro,
chove nos corações.
Chove em cada alma,
em cada refúgio chove;
e quando olhaste em mim,
com os olhos que me seguiam,
e enquanto a chuva caía
no meu coração chovia
a chuva do teu olhar."

Novembro 1963 - Inéditos e Dispersos - Ana C. César