sexta-feira, 22 de abril de 2011

game over (autoflagelação)

Nem eu

- pasme –

suporto harmonicamente essa inconstância.

Minha.

Que tentei, no amargor da continuidade, agir com beleza e flores e olha como posso ser agradável.

E o que reflete, geralmente, incomoda.

Por mais que fuja do meu histerismo,

na mesma tecla, sempre na mesma tecla...

Só não quero ouvir que é mentira.

Porque:

desabafei sobre o único tabu que deveria ser evitado.

Indireta, misteriosa, escancarada.

Plus: ridícula na cópia da insensibilidade imaginária.

E na crença que o sofrimento aqui é mais do que o meu guia.

É o meu pulso.

domingo, 17 de abril de 2011

Nocaute I

Transito
entre redes desarmadas e caminhos tortuosos.
Almas vivas, amantes, no tapete,
aos beijos, refletidos.
Encontro
o desejo por quem nunca deixou de ser.
Cúmplice
na montanha high tech que insiste em permanecer.
Entre
palavras: ora letras, ora insanidades psicografadas.
E fazem tudo parecer oração para affairs não consolidados, seguida de rituais de culpas apontadas e cobranças subliminares.
Mas (nunca um "mas" fez tanto sentido), na minha infinidade de lugares comuns, busco ainda o brilho adolescente nos olhos.
Já nem encaixo mais.
Finjo
e luto.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Filosofias de botequim I: Benção pro amor


Dizem por aí que Deus fez o homem por amor. Antes de destruir tudo, a ideia era que ele cuidasse do mundo. Mas, o coitado andava por aí sozinho e cabisbaixo esquecendo do trabalho, aí Deus achou por bem lhe dar uma companheira.

O final a gente já sabe: os dois encontraram uma maçã, dormiram juntos e acabaram com o paraíso.

Desde então, o amor pede calma, muita calma. Se não der certo da primeira vez, junta os cacos e procura o amanhã.Porque a verdade é que a vida é muito melhor para quem ama.

Se pinta, se perfuma, abre as portas de casa e vai à luta. Que onde come um, cá entre nós, é bem mais gostoso quando comem dois.

No fundo, no fundo, todo mundo é “eu sozinho” rezando para ser “Nós juntinhos”.

Que o amor não nos congele com os seus olhos de medusa.
E fique claro: é preciso abrir mão de si mesmo pra entrar no outro. Desapegar dos erros, dividir os espaços, consertar os defeitos arduamente cultivados. Não é para qualquer um.

Como diz o funk, pra ser feliz no amor tem que ter disposição.

E aos que acham que amar não é pra eles, ou que o amor já passou, isso é história pra boi dormir.Vivem na memória machucados antigos, se privam de canções e poesias. Bebem o amor de ontem e acordam todos os dias com ressaca de passado.

Arredias, algumas pessoas vivem assim: de dia implodem o peito, e de noite, no íntimo, rezam para serem merecedoras de amor no amanhã.

Não sabem que o amor é irrequieto, passional, machista e feminista.
Dá um tapa na cara do homem e da mulher que o encara e pede tudo: o samba mais bonito, o choro mais sofrido. A alma de quem tem pra dar.

Não existe certeza. Achar o amor pode levar todo o tempo do mundo, uma vida inteira de desafetos, bailes de carnaval, encontros às cegas, beijos banais, horas de chat no par perfeito, rugas de tentativas e para alguns at’e os cabelos.

Mas, o que importa? Se quando duas vidas de juntam é capaz de mudar tudo.

Que alma é tão pequena que o seu feijão com arroz não mereça vontade de viver?

Que buraco negro cotidiano não quer ser domingo de sol?

Quando um amor verdadeiro passa é como se só dois pudessem mudar o mundo. São duas partes rumo ao tudo.

Novelas à parte, a verdade é que o amor dá trabalho. É preciso se reinventar, costurar histórias, misturar mal-passados com esperanças de futuro. E quando vem ao ponto, dá casamento.

Aos amantes arredios e aos incorrigíveis, com a benção do Chico, o amor avisa:

Não se atire do terraço, não arranque a minha cabeça da sua cortiça, não beba muita cachaça e não se esqueça de mim.

Nem lenda, nem crença, nem promessa.

O divino está em quem tem sede no coração, luz nos olhos e coragem para o amor quantas vezes for preciso. Iluminados sejam todos vocês e abençoados de amor até que a vida os separe.

*Texto lido no casamento de Guilherme Laux e Solange.

sábado, 19 de março de 2011

após um contratempo

Realce

(bem ao seu alcance)

sem a pretensão de fazer florir

seja lá sol ou do-ré-mi.


Sentido? Não tem.

Depois dos fatos consideráveis,

murchou.

Adquiriu a capacidade de gelar por dentro.


A revolução,

da ironia e da crítica,

apontou o quase vício e só mais um trago já era internação.


Procurou a solidão e encontrou palavras:

deslumbre,

pessimista,

covarde,

retorno.

Combina?

Pouco tempo para esquecer.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O trágico não vem a conta-gotas*


Depois de passar longos dias sem ninguém vê, me deu vontade de escrever uma carta, endereçada a alguém que eu jamais vi, ou a alguém que dormiu dentro de mim ou talvez a alguém que já tenha morrido. Não será uma carta como a de Oscar Wilde (quando preso) à Bosie, mas uma que não tenha pretensão de nada provar, nem de nada dizer. Queria que em um dia qualquer, sem nenhuma especialidade, me devolvessem o belo mundo da cor e do movimento.

Viver sem nada desdenhar, sem dá a devida importância a completa falta de domínio de suas emoções, demonstrados pelos teus longos silêncios mal-humorados e pelos acessos de raiva constante. Libertar-me deste mundo de angústias que todos os dias tenho que passar. Não porque necessito delas, pois a minha vida, o que quer que a mim e aos outros tenha parecido, foi sempre uma Sinfonia de Tristeza. Na verdade, “fui muito feliz, mas completamente triste”. Não podes me culpar de não ter chegado ao todo. Não posso lhe dar mais do que já lhe dei. Tiveste a mim por completo, se é que há completude no amor! O que reivindicas é a minha existência, e sem saber o que ela significa, penso que já lhe dei.

O egoísmo é palavra de ordem. Arre com as dores, com o que de mais doído pode se sentir. É quase impossível para alguns seres reunir em si um amor ativo pelo outro ser que se julga amar, já para outros é visível a capacidade não apenas de compreender, mas de compenetrar-se dos problemas do outro, de vivenciá-los com ele. Quem dera no momento da crise, sempre encontrasse nele a pessoa que soubesse ouvir com atenção e paciência e temesse ferir com sua palavra. Quem dera houvesse um desdobramento do amor e não o ciúme por coisas vulgares.

*Guimarães Rosa [1908-1967]

sábado, 5 de fevereiro de 2011

biodança

Isolamento – o que por si só é meio inédito.

Sair hoje, barzinho – erro!

Filme, David Bowie – nem pensar!

Marisa Monte a cantar que a dor é minha a dor é de quem tem – talvez...


Bipolaridade ou início de depressão?

Calm down, não sejamos tão apocalípticos!


Lembra daquele desenho da bailarina?

É que fico presa nas minhas interrogações!

Se ainda existo, por que?

Invejo alguns sorrisos, mesmo sem saber (juro)

Se isso me consola, as melhores cartas são aquelas que nunca chegamos sequer a saber que foram escritas.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tríptico (dobrável)

Sinto cheiro de decepção no ar.

Brindo – em taças cristalinas – momentos fulgazes.

Assombrada, ergo o braço:

pelos coitados e áridos!

Os que nas suas viagens, não se encontram, e, por fim, deparam-se com amarras e dúvidas.


O tempo, nunca suficiente, consegue ressignificar muita coisa.

Também nós e os fatos.

E tudo que fica por ser dito desemboca em:

uma relação ainda mais mecânica;

conversas incrivelmente surreais;

e “ois” com um tom pujante de rejeição.


Balela: futuro repetir o passado?

A citação hoje não tem a menor graça.

Desconhecer o amor é imprescindível.

Principalmente, no seguinte formato:

lua que ri, cor nude e noite bizarra.