segunda-feira, 7 de junho de 2010

Chama e Fumo



Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça
(Como te poderei dizer?...),
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas... tem de ser...
Amor?... - chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Manuel Bandeira, Teresópolis, 1911

domingo, 6 de junho de 2010

De vinho...Poesia...Ou virtude


Lilás Malbec - óleo sobre tela - 70X60cm - Patrícia Moreira

”....E SE UM DIA, NOS DEGRAUS DE UM PALÁCIO, NA ERVA VERDE DE UMA VALETA, NA SOLIDÃO BAÇA DO VOSSO QUARTO, ACORDARDES, JÁ SÓBRIOS, PERGUNTAI AO VENTO, À ONDA, À ESTRELA, À AVE, AO RELÓGIO, A TUDO O QUE FOJE, A TUDO O QUE GEME, A TUDO O QUE ROLA, A TUDO O QUE CANTA, A TUDO O QUE FALA, PERGUNTAI: "QUE HORAS SÃO?" E O VENTO, A ONDA, A ESTRELA, A AVE, O RELÓGIO, RESPONDER-VOS-ÃO: "SÃO HORAS DE VOS EMBRIAGARDES!"
PARA QUE NÃO SEJAIS OS ESCRAVOS MARTIRIZADOS DO TEMPO, EMBRIAGAI-VOS SEM CESSAR."

DE VINHO, DE POESIA OU DE VIRTUDE, À VOSSA ESCOLHA.

Charles Baudelaire

sábado, 5 de junho de 2010

Brisa



Por mim passavas
– a água mais pura –
e eu sofri sede.

[Manoel de Barros]

Queria ter nascido árvore. Não rebentar de tristeza e nem parar quando o susto pede para correr. Confio poucos nos homens, sempre me pareceram invejosos e um tanto arrogantes. Gosto mesmo é de bicho, seja lá ele qual for. Mas vejo com espanto, que mesmo inundados de pureza, ainda assim, sofrem com dores e chagas que eles nem sabem de onde vêm nem por que vão. Só se encolhem e esperam que ela se vá ou que um humano “semi-bicho” [aquele que faz da dor alheia a sua dor] acolha-o e desvie a sua agonia. Penso na Brisa, no seu cheiro, nos seus olhos levemente tristes e oblíquos. Procuro uma resposta para os males e ela se fecha em uma gaveta sem chave. Mas quero crer no bem, na recuperação e na paz que virá num breve depois. E na concisão de um átomo, sem ninguém se aperceber, continuar a envolver ternamente dois seres que de tão diferentes se tornaram UM.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

"... em torno dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra."

Clarice Lispector

Partindo


Estou partindo amanhã
Deixarei para trás o regaço
Partirei no ônibus primeiro
Ocupando lugar algum.

Deixarei o que não foi meu
Amor roubado de “calada noite”
Farei brotar em meu jardim
Sonhos e flores..
Que encham de encanto a minha estrada de volta.

Estou partindo ..

Mas levo comigo a melodia do teu sorriso..
O seu olhar de fazer sorrir...
Teu jeitinho de cantar feliz sorrindo...

Ah!
Caminharei para o céu
O elo com o paraíso
E quando lembrar-me de ti
Deixarei que dos meus olhos surjam lágrimas
Libertando a saudade.

Estou partindo amor meu ..
..Sem tristezas ..Sem pesar
Irei à minha presença
Entregando o meu ser
A esta estrada que se chama solidão.

Patrícia Moreira

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Hello, Stranger


Mesma:
casa,
cama.
Mesmos laços.
Filmes, mais gargalhadas.
Lágrimas compartilhadas.
Independentemente cumplices.
De amor,
de histórias,
de toques e olhares.
Trocas nessa vida.

Eram.
Erraram.
Subitamente estranhos.
Sem mais cheiros,
noites em claro,
choros e lua cheia.
Estranharam-se.
E depois...
Mais nada!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Espelho


As cinzas de um sábado à tarde.

Quando a saudade aperta, o desespero se aflora.

Dor que é dor. Física, emocional, percebida pela luz verde.

Da lua que, por acaso, é cheia.

Cabeça que dói, nesse misto de mal-estar, que ora está ora não.

Estagnada.


Não há desejo,

há lembrança.

Construção alguma existe.

Mistério e letreiros tricolores piscam a incerteza.

S de tantas palavras.

S de solidão.

Sábado.

Esvaindo.

Nas cinzas do seu cigarro.