Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
sábado, 24 de abril de 2010
Ó vida futura! Nós te criaremos.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Retalhos de Clarice
O que digo deve ser lido rapidamente como quando se olha. Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.
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Fiquei pensando numa coisa que li recentemente que dizia que o próximo instante é o desconhecido, quem dera possuir os átomos do tempo e capturar o futuro pra que assim ele não fugisse, não escapasse e ficasse sempre no que é hoje. Mas sei que não existe nada mais difícil do que entregar-se ao instante.
Com você vivo sensibilizada pelo arrepio dos instantes. E entendo que no tempo há espaço para o ontem e o hoje. Você faz dos dias um só clímax: vivo à beira.
Fui ao fundo dos momentos. Fotografei cada instante. E ainda não aprendi a não lhe perguntar por que, mesmo sabendo que sempre ao lhe perguntar por que continuarei sem respostas. Então, por vezes, mergulho na inconsequência, pois a liberdade é o meu último refúgio.
O estranho me toma, e lembrar de você sempre me traz um alarde colorido, pois você é antes, é quase, é nunca.
Para você que se acostumou a me lê em silêncio.
Maria Karina
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Traiu

Por que você quer me beijar?
Se já tem lábios para amar, viajantes da alma?
Que arrepiam os pelos da pele suada,
ofegando o ar quente, quase molhado, as gramas da primavera?
Ah... Primavera...
Já pensou se ela soubesse deste nosso segredo?
Por que quer me olhar?
Se já tem olhos de Hórus?
Intactos a te desejar?
A mais desejada, cerne das atenções e das alternativas:
És a escolhida!
Por que quer dançar comigo?
Já que possui a mais linda bailarina?
Que levita sobre o cimento, polido, antiderrapante?
Da conturbante e agradável vida.
Para que ela nunca possa cair (mesmo que tenha frieira e calos doloridos).
Não sei, mas, com certeza você me atraiu...
E traiu!
Sem “querer”, eu também traí, atraída por sua essência e particularidades.
Não de pele, ou de carne, muito menos de afinidade...
De laços, de cachos, coloridos e encantados
Foi assim: não foi insano.
Não foi engano.
Quando te beijei
Perto de sua bailarina
Que eu também amava.
Larianne Rocha
segunda-feira, 12 de abril de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
“E se você fecha o olho a menina ainda dança. Dentro da menina ainda dança...”
“... e continuará a dançar, ela, até sua sandália quebrar. E o seu corpo cansado, deitar e cair numa imensidão aguda de uma felicidade inconstante.”
Aloma Galeano
Desbrava silêncios.
Transborda desejos.
O abre e fecha do obturador:
clicando os olhos da menina (piscados).
A boca que é só – risos.
Orelhas alargadas ouvindo o alagamento.
Que o imperfeito é mais que perfeito.
Na medida errada para dar certo.
Tudo WellDone, baby.
Que não se vê, mas que sente:
pasma pelo ineditismo intenso e gritado!
Ah, menina que dança,
se faltam versos,
sobram redudâncias.
terça-feira, 2 de março de 2010
A Fênix
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Um breve Príncipe

Chega a casa em que trabalha e mora e é imediatamente sacudida pela ira de Senhora que não quer mais um felino sujando seu chão e seus caros sofás. Embora, a dona do lar já tenha alguns animais destes fazendo o que este novo não poderá fazer. Para não perder o emprego nem para não jogá-lo na rua, promete que Príncipe [era assim que Maria o chamava] não iria dar trabalho e que qualquer sujeira seria de pronto asseada e desinfetada. Como ele não parava de chorar e pouco se alimentava, ela se viu obrigada a dormir com ele agarrado ao peito.
No meio da noite vinham os sobressaltos, e de maneira intempestiva ele começou a sujar lençol, fronha e o chão. Maria não mais dormiu, percebeu naquele instante que Príncipe não era de todo saudável. E isso a entristeceu, como asas quebradas que nos impede de voar. É cedo, portanto, hora de levantar, e a mulher vendo aquele quarto todo fétido e lambuzado, leva-o dali enquanto Maria se atarefa com seus afazeres. De pronto sente a falta do Príncipe, procura-o e não o encontra, sai na rua com o coração disparado e as mãos geladas [afinal, é costumeiro seu mundo desabar e suas cansadas mãos e seu afilado nariz ganharem temperatura fria, como se tivessem saídos de um freezer], chamando-o e rogando a Deus para que possa mais uma vez abraçá-lo.
Depois de sua caminhada matinal a mulher chega e Maria pergunta onde foi que o colocou, e sem muitos rodeios responde que o tinha deixado em uma casa velha, onde continha ali muitos gatos. Maria já tinha ido até lá e também já tinha rodado todo o quarteirão e nada tinha visto, mas foi novamente à procura. Chegando à casa indicada, perguntou a uma mulher que atende por Norata, se por acaso tinha se deparado com um gatinho, de pêlo mariscado, magrinho e de olhos profundos e tristes. A resposta foi não. Então, seus olhos começaram a destilar águas. Como procurou e chorou Maria! Ansiosa caminhava, mas seus pés não chegavam a tocar o chão.
Voltou para a labuta sem conter suas lágrimas sofridas e envolvida em seus soluços abafados. De súbito chega Norata, e pergunta se o gato que estava procurando era aquele (levantando-o para que Maria pudesse ver) e tonta de felicidade responde que SIM. Ela conta que o achou longe dali quando estava voltando da padaria com os pães. Então, a dona da casa vem e pergunta se por um acaso aquela senhora não poderia criar aquele gato, e que se a resposta fosse positiva não se preocupasse com a ração, pois isso ficaria por sua conta. Não sei se por piedade ou para não desagradar à respectiva senhora responde com um aceno de cabeça que poderia.
Logo é levado para casa velha, com um litro de leite e um saquinho de ração em uma das mãos, e Príncipe em outra. Um misto de emoções tomou conta de Maria. Às vezes parecia uma borboleta embriagada com o cheiro das flores e, logo em seguida, ficava chorosa como num intervalo que não se estabelece o tempo em segundos. Pensava que agora ele teria um lar e se alegrava, pensava na distância entre os dois e se entristecia. Mas a vida precisa seguir, e assim Maria fez: voltou ao trabalho, aos jogos na folga e aos amores noturnos.
Mas sempre que passava por ali era inevitável não ir ao encontro de Príncipe, pegava-o e olhava seu estado. Nunca gostava do que via, ele continuava sem brincar e com mais força seus olhos tristes a encarava. Decidiu que sempre ao meio-dia iria pessoalmente alimentá-lo. Quando chegava com o leite ele bebia tão descompassadamente e tão ávido de fome que ela se perguntou se estavam mesmo a nutri-lo. Percebeu também que ele estava tomado de pulgas e devido a uma constante disenteria alguns bichos começavam a tomar conta do seu corpo. Ela o levou para dar banho, e Senhora ficou gritando e dizendo para não fazer imundices no muro. Mas ela que já não ouvia nada, deu banho com creme (pois de tão nervosa, ao invés de pegar o xampu pegou um creme de pele) e retirou as pulgas que estavam sugando todo o seu sangue. Quando estava embrulhando-o por causa do frio ela pensou que ele iria morrer, tal qual era a sua fragilidade naquele momento. Cumprida a missão, abalada, voltou a entregar na casa velha o gatinho mais doce que já teve oportunidade de conhecer.
Aquilo não saia de sua cabeça. No dia seguinte voltou no mesmo horário de costume, e ali estava ele: sujo e abatido. Levou-o novamente e fez o mesmo processo do dia anterior, mas agora com a complacência da sua senhora. Vendo aquela situação, a senhora pediu para que o deixasse ali, que a partir de então iria cuidar dele também. Como o coração e o sorriso de Maria se abriram! Era como se sua fortuna e glória estivessem subentendida naquele espaço.
As duas insistiam para que Príncipe comesse, mas sempre comia pouquinho e com dificuldade. Sempre que se sujava, logo era lavado e enrolado em panos limpos. Arranjaram uma caixa de sapato e acolchoaram com vários panos para que ele dormisse ali. Ele tentava amizade com os outros cinco gatos que ali moravam, mas a natureza é tão bela e estranha que não se entende o porquê dos gatos mais velhos, de certa maneira, discriminarem os recém-chegados, parecia que sentiam nojo ou ciúmes dele.
A dificuldade de comer aumentou e ele já não andava com freqüência. Maria, então percebeu, que a senhora já estava inteiramente apaixonada por Príncipe e que a vida daquele “serzinho” tão indefeso dependia também do amor dela. Os dois se completavam, e a senhora passava o dia a cuidar dele. Ele ia piorando a cada dia, mas Senhora não o deixava, alimentava-o com uma seringa. E quando ele acabava de tomar o leite, ela se sentia renovada e cheia de esperança, afinal, acreditava que ele ia melhorar.
Um doutor de animais o receitou, mas o quadro permanecia igual. Seguiam-se as horas e ele não saia mais de sua caixinha, a não ser quando fortes dores o atacavam e ele voltava a sujar mais uma toalha. Ele já não tinha vontades, só aflição, a única coisa que ainda era potente eram os seus miados que batiam nas duas mulheres como fortes gemidos. Percebiam que Príncipe não agüentava mais, até quando o paninho que o enrolava era levantado ele gritava. Ele só ficava bem na caixinha ou nos braços de Senhora. Eles se amavam, de um amor que Maria nem acredita ser real.
Maria tinha o peito todo em chagas e pediu a Deus para levá-lo, pois não agüentava mais compartilhar daquele sofrimento. Enquanto isso, Senhora se agarrava ao alimento que de suas mãos, para acarinhá-la, ele ainda sorvia. Para ela, era como se do leite ele brotasse ou renascesse para vida. Seguravam-no nos braços e era difícil saber se ele ainda estava vivo, sua respiração era inerme e seu corpo imóvel. Vendo a cada segundo sua piora, Senhora, quase louca, cobriu o gatinho com uma manta e saiu desesperada em busca de um veterinário que pudesse avaliá-lo e como um deus lhe passasse a fórmula da vida eterna. O veterinário volta a receitá-lo, mas avisa que Príncipe está perdendo a temperatura. Senhora corre para a farmácia mais próxima e compra todos os remédios que ela crê que o devolverão à vida.
Abalada volta para casa e começa a medicá-lo, ele toma a primeira seringa que contem uma substância que irá aliviar a dor, e como transborda de contentamento Senhora. Mas esse verter de alegria é de súbito abalado. Ela com pensamentos e mãos fortemente amarradas se vê obrigada a abrir os olhos. Ele em instantes sucumbirá. Suspira, cambaleia e quando está perto de partir, Senhora o coloca em sua amada e triste caixinha, para não acompanhar seus momentos finais, baixa a tampa e desata a chorar. E como se desespera e grita de dor.
Levanta calmamente a caixinha e de pronto compreende que ele não está mais ali, partiu para o sempre. Corre para o telefone e dá a notícia a Maria. Dispara Maria de volta a casa, já com lágrimas e um choro que vai se tornando compulsivo. Longo é o caminho quando o peito já está lanceado. Por fim, chega Maria, uma mulher que já nasceu destinada a viver por entre os animais. E juntas, enterra no solo fértil o que a alma quebrantou pelo mais intenso amor.